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sábado, fevereiro 10, 2024

[RESENHA] “'Piranha Teeth' e a música pós-humana brasileira (MPB)", por Amante da Heresia

 


“Piranha Teeth” e a música pós-humana brasileira (MPB)

Por Amante da Heresia (a.k.a. Léo Pimentel Souto)*

em uma zona cinza de MekHanTropia, há uma curva num vortex de saci onde as leis da lógica são meras espectadoras. nela habita um certo alQUEERmista peculiar que rege uma harmonia cósmica intrinsecamente ligada a um ritual insólito: para ouvir a melodia transcendental das suas estrelas é preciso que deixemos que nossas orelhas sejam mordidas por uma específica piranha biomecânica gigeriana de estimação.

pois bem, eis minhas orelhas pra jogo! nhac! nhac! nhac! nhac! nhac! nhac! nhac! rapá du céu! que dentada afiada essa da porra da moléstia! dentes feito uma quimera entre pétalas de rosa e agulhas de cristal! pronto! hacking sangrento realizado! sim! agora ouço! conexão direta com as vibrações cósmicas! sinfonia de dor e êxtase! amor e protesto! eros, suor e fúria!

Acesse o EP "Piranha Teeth" de Fredé CF pelo link: https://fredecf.bandcamp.com/ 

os dentes da piranha dançavam em minhas orelhas, como agulhas de um toca-discos celestial antiMecHanTrópico! esses dentes-navalhas-xenomórficas deixaram rastros de arco-íris na minha carne ensanguentada que rasga.

a experiência vem em sete talhos. fantasmagoria sensorial de minha carne crua, um tanto indigesta. a dor da mordida de cada um dos sete rasgos sonoros, se dissolve na sinfonia cósmica de violão, voz, letra e sons eletrônicos que inundaram minha mente.

cada dilaceração é uma viagem pelos confins do universo frederiano de suas constelações sonoras. eita alQUEERmista danado!

agora exibo, orgulhosamente, estas singelas cicatrizes em forma de microconto, tatuadas pelas mandíbulas etéreas de Piranha Teeth de Fredé CF, como um logotipo de banda de black metal, cujo estripamento sugerem a sigla MPB, música pós-humana brasileira.

 Acesse o EP "Piranha Teeth" de Fredé CF clicando no link: https://fredecf.bandcamp.com/ 



* O Amante da Heresia (a.k.a. Léo Pimentel Souto) é artista transmídia e pós-doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Integra o Grupo de Pesquisa CRIA_CIBER (FAV/UFG).

pós-créditos: "ainda bem que nesse rio não sonhamos com candirus elétricos! porque seria o maior pesadelo! ufa!" (Amante da Heresia).


domingo, janeiro 28, 2024

[RESENHA] "'Piranha Teeth': Quando o zumbi de Syd Barrett visitou a hipermodernidade", por Ciberpajé

Piranha Teeth: Quando o zumbi de Syd Barrett visitou a hipermodernidade


Resenha escrita por Ciberpajé* em 28/01/2024.

 

Fredé CF é profícuo, tem criado música com uma urgência que denota toda a sua pulsão criativa diante das indignações de nossa era, e dos seus êxtases e dores como indivíduo, como estrela cósmica brilhando intensamente antes de se apagar. A essência de sua música é a poesia pungente, visceral e também densa. A poesia que filosofa é a matéria primal, o barro ancestral com o qual ele molda esse novo e impactante EP “Piranha Teeth”. 

São 7 canções engendradas em cerca de 20 minutos, onde a sua verve de cancioneiro solitário, criando música estruturada em violão e voz e em experimentos sonoros digitais, galga mais um patamar. A sonoridade ímpar de Fredé CF não enquadra-se em rótulos, talvez o gênero mais próximo que poderíamos situar sua música seja a psicodelia, mas ainda é algo muito restritivo para enquadrar sua unicidade. Obviamente ecos de suas influências aparecem, como é natural, mas não eclipsam sua originalidade. Como na sensacional faixa Darkways (Fantasmagorias), que parece ter sido gravada por um inspirado zumbi de Syd Barrett levantado de sua tumba depois da queda do cometa! 

Acesse o EP "Piranha Teeth" de Fredé CF pelo link: https://fredecf.bandcamp.com/ 

As faixas revezam a língua, ora em português, ora em inglês, algumas incluem trechos nas duas línguas e, apesar de eu preferir o português, Fredé trafega belamente pelas duas expressões linguísticas, conseguindo alcançar força poética em ambas. A faixa de Abertura "To The Stars (my love) to the seas", apesar do título em inglês, é um libelo lírico sobre a vida no agora, recitada em um portguês que fica ecoando em nossa alma. Já Hacker Possession (Bleeding Nightmare High-Tech) é um rock que prega na mente feito chiclete no sapato, o mais próximo de uma canção pop que Fredé CF já chegou, a segunda parte em português que fala da transmutação do cão em lobo lembrou-me uma das máximas de meu ideário de Ciberpajé e tocou-me fundo! 

Leviathan (Bon vivant) é um poema recitado com a atmosfera de um dedilhado e ecos eletrônicos profundos, uma aura melancólica sobre encontros e desencontros. Em pouco mais de um minuto e 20 segundos a faixa Das Kabinett von Doktor Fritz (Art Hospital) resgata sonoridades vistas em faixas de outros trabalhos. Com uma batida eletrônica e um ritmo frenético ela é como uma intro para a Barrettiana Dark Ways, da qual já falei e vem na sequência. Então temos No Mundo dos Ossos, a mais frediana de todas, com um riff de violão e um ritmo de voz que nos remete às faixas do incrível álbum de estreia MekHanTropia. 

O EP fecha com a emblemática Morto (Ode to sad people), a mais longa do disco e com uma crítica ácida à hipercompetitividade na era das redes sociais. A capa é a cereja do bolo, ácida e estranha, belamente anticomercial.Não por acaso Fredé CF já foi finalista de premiações nacionais de música, a singularidade, visceralidade e autoralidade de suas faixas é algo incomum nessa era do copy paste. Viva Fredé CF!

Acesse o EP "Piranha Teeth" de Fredé CF clicando no link: https://fredecf.bandcamp.com/ 


*O Ciberpajé (a.k.a. Prof. Dr. Edgar Silveira Franco) é Ph.D. in Arts & Transmedia Artist - FAV/UFG (Federal University of Goiás) - Brazil. Acesse o seu blog: http://ciberpaje.blogspot.com.br/


[EP/Conto] “Piranha Teeth (A Jornada de Doktor Fritz em MekHanTropia)”

“Piranha Teeth (A Jornada de Doktor Fritz em MekHanTropia)”, novo lançamento de Fredé CF (2024), narra trechos da resistência liderada por Doktor Fritz contra o sistema distópico de MekHanTropia.

Acesse a obra pelo link: www.fredecf.bandcamp.com


Com um grupo chamado “Agentes de Resistência”, Fritz (também conhecido como Tóhtshera Okwari), enfrenta o “MekHanTropo Supremo”, uma entidade holográfica adorada pelos Elonions, buscando a libertação do controle mekHanTrópico. Guiado por visões oníricas em meio às sombras, Fritz mergulha em uma jornada de autoconhecimento e transcende as padronizações do status quo mekHanTrópico. A narrativa pós-mekHanTrópica entrelaça mitologias, elementos cyberpunks e símbolos culturais, destacando a importância da resistência cultural e individual em meio ao domínio hipertecnológico institucionalizado, em busca da reconexão com a essência animal perdida.
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"Piranha Teeth (A Jornada de Doktor Fritz em MekHanTropia)"

Escrito por Frederico Carvalho Felipe (a.k.a. Fredé CF)

Próximo ao coração do sistema de controle de MekHanTropia, aonde as sombras dançavam ao ritmo das máquinas e a luz natural era apenas uma lembrança distante, Doktor Fritz liderou a resistência contra o sistema opressor. Em uma de suas incursões apocalípticas, Fritz ficou também conhecido como Tóhtshera Okwari.

Este nome lhe foi atribuído por  Felipe Loup-Ulloak, último líder da resistência anti-mekHanTrópica, morto durante o período de expansão do Pesadelo PsicoBinário. O nome faz referências ao imaginário ancestral de um canídeo extraviado que não encontra abrigo, ar ou alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível. Sua etimologia traz uma fusão de culturas e uma ponte entre a sabedoria de diversos povos. Felipe Loup-Ulloak, em uma de suas viagens oníricas, recebeu uma visão deste canídeo e o associou à figura do parceiro de resistência: Doktor Fritz.

Acesse a obra pelo link: www.fredecf.bandcamp.com
Por isso, como um gesto de respeito e consideração àquele amigo que morrera em seus braços numa das inúmeras batalhas que participou, Fritz se orgulhava deste renascimento orgânico afetivo em meio às feras circundantes de silício. Neste mesmo período, talvez um pouco antes, Doktor Fritz conheceu nas montanhas nevadas uma espiã bon vivant de origem ludovicense e catalã, cujo nome era inspirado em obras de um escritor russo que agora me foge à memória. Seu nome era Nastassia Fillipo e era especialista em línguas e trajes. Com uma missão pessoal cyberpunk de implosão do sistema de dentro para fora, ela o ajudou a enxergar a MekHanTropia por novas perspectivas transdimensionais, o que abriu caminho para a ampliação global da resistência.

Porém, aqui neste relato, o tratarei por seu nome de batismo original com a intenção de não propagar (ou parecer propagar) fake news desrespeitosas acerca de povos resistentes ou de quem quer que seja. Dito isso, acredito ser importante citar essa sua outra identidade, uma vez que pode haver correspondências diversas em meio aos resquícios do dataísmo mekHanTrópico que ainda persiste em nossa sociedade, além de trazer à tona uma curiosidade acerca desta figura importante ao imaginário Pós-MekHanTrópico.

Vamos então aos fatos: Em meio às ruas secas de concreto e fios de silício entrelaçados, Doktor Fritz carregava consigo, após anos de resistência, não apenas o conhecimento acadêmico adquirido através das IAs durante sua formação em Artes Ocultas Transbinárias, mas também algo transcendental ligado à divindade Azteca de "Tezcatlipoca" (ver notas no fim do texto): um espelho de obsidiana pendurado em seu pescoço, que visualizara em um de seus escapes oníricos pela Realidade Vegetal ascottiana (ver notas no fim do texto). Ele buscava integrar ensinamentos dessa iluminação espiritual em sua jornada de resistência e autoconhecimento.

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A resistência estava espalhada como fragmentos de uma realidade esquecida. Doktor Fritz liderou um grupo eclético chamado “Agentes de Resistência”, o qual cada um trazia suas próprias histórias e motivações. Entre eles, Fritz contava, ao redor de uma fogueira erguida durante uma noite fria (onde antigamente era conhecido como Monte Real), a lenda do Cão Breu: uma figura fantástica sombria anunciadora de tragédias e, ao mesmo tempo, catalisadora de uma jornada de autoconhecimento e transcendência.

A presença do Cão Breu tornou-se por eras uma metáfora para as sombras internas que abraçavam a MekHanTropia. Na narrativa oral do local de nascimento de Fritz, o Cão Breu representava a culpa e o remorso mas, em MekHanTropia, ele tornou-se um símbolo da resistência, um chamado para enfrentar as próprias sombras interiores e transcender os limites impostos pelo sistema. Guiado pelos ensinamentos oníricos e impulsionado pela presença transbinária do Cão Breu, Doktor Fritz seguiu com a resistência para os recônditos mais profundos de MekHanTropia. Lá, enfrentaram o “MekHanTropo Supremo”, uma entidade holográfica criada pela IA e adorada pelos Elonions (ver notas no fim do texto), desprovida de empatia e sedenta pelo controle total do sistema.

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A lenda do Cão Breu ecoava como um mantra entre seu bando insurgente, incentivando os resistentes a olharem para dentro de si mesmos. Em meio à batalha, Fritz enfrentou seus demônios internos, suas sombras e hesitações. A lenda tornou-se para ele um guia, uma jornada rumo ao autoconhecimento, uma busca por transcender as amarras que o sistema imputou em sua alma e enfim reconhecer suas peculiaridades que o tornava único neste mundo devastado. A resistência finalmente desativou o “MekHanTropo Supremo”, desmantelando as engrenagens do controle com o fundamental auxílio também de "Supay", o Senhor do Submundo (ver notas no fim do texto). A luz natural começou a filtrar-se pelas fendas da névoa cibernética, anunciando um renascimento mágicko.

Em meio aos destroços mekHanTrópicos, Doktor Fritz percebeu que a verdadeira resistência não era apenas contra as máquinas, mas também cultural e individual, uma jornada interior, uma busca contínua pelo autoconhecimento e pela transcendência integrativa das sombras. A lenda do Cão Breu, agora adaptada a um contexto de resistência, tornou-se a narrativa que inspirava não apenas a enfrentar o sistema, mas também sua própria alma cooptada.

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Com dentes de piranha brilhando como faróis de esperança estampados nas bandeiras pintadas com sangue e óleo, a resistência à MekHanTropia persistia, guiada pela união de sabedoria ancestral, mitos transcendentais, viagens oníricas e a determinação de resistir à maquinaria da opressão. Uma curiosidade interessante é que esse peixe, típico do que antes era conhecido como Brasil, se tornou um símbolo importante contra o Pesadelo PsicoBinário. Os Agentes de Resistência incorporaram a piranha de maneira visceral, a partir da expressão tupiniquim “boi de piranha” (ver notas no fim do texto), estabelecendo uma metáfora sobre o sacrifício de si mesmo para salvar o planeta do sistema mekHanTrópico. Neste caso, o boi seria a resistência. Já as piranhas seriam as máquinas e os próprios indivíduos cooptados mekHanTroporfizados, enquanto os dentes seriam os algoritmos podadores de sonhos em função da padronização sistêmica.

Acesse a obra pelo link: www.fredecf.bandcamp.com
Todas as noites os Agentes de Resistência olhavam para o céu ansiando pelas estrelas e sonhavam em um dia navegar pelos mares que outrora eram um santuário para a liberdade. O grupo imaginava a possibilidade de um dia explorar as vastidões celestiais e os oceanos, onde a humanidade poderia reencontrar sua essência perdida. Em um destes momentos, Fritz lembrou a todos que, apesar da MekHanTropia, a esperança residia internamente em cada um, uma vez que cada indivíduo traz consigo um universo único com suas próprias idiossincrasias, sonhos e aspirações.

Durante a infiltrada em território inimigo, Aila (a Inteligência Artificial aliada à resistência e especialista em hacking) mergulhou nas entranhas digitais dos códigos de MekHanTropia. Esse ato se tornou um terrível episódio high-tech, especialmente quando ela enfrentou programas de segurança avançados, cada um mais letal que o anterior. Cada linha de código binário era uma batalha contra as forças hipertecnológicas da MekHanTropia. Aila conseguiu quebrar o binarismo limitante dos “zeros” e “uns” e acessar as infinitas nuances e complexidades ocultadas pelo sistema. Essa ação anti-mekHanTrópica foi crucial para o início da libertação psíquica contra o Binarismo Anticósmico (ver notas no fim do texto) instituído nas mentes dos bovíduos mekHanTrópicos que não conseguiam mais sonhar.


No ápice da batalha contra o “MekHanTropo Supremo”, uma monstruosidade mecânica se ergueu como um Leviatã, o que gerou uma dualidade dentro da resistência. Porém, apesar de sua presença ameaçadora, o Leviatã estava tão distante em essência da humanidade quanto estava próximo fisicamente e, portanto, a luta contra essa máquina colossal era também uma batalha pela reconciliação com as raízes animais perdidas em meio às engrenagens de MekHanTropia, o que acabou por unir ainda mais os dissidentes em pról do chamado "Despertar".

O Agentes da resistência descobriram um refúgio secreto que foi intitulado como "O Gabinete". Este lugar era um santuário onde formas antigas de arte e expressão humana resistiam à homogeneização digital através da exaltação da criatividade. As paredes eram adornadas com pinturas, esculturas e manifestações de resistência contra a MekHanTropia. Era um lugar onde a verdadeira essência humana e a arte orgânica podiam prosperar fora das garras da tecnologia desumanizadora institucionalizada. Durante momentos de perda e desespero, Doktor Fritz recordava uma antiga canção que ele chamava de "Ode às pessoas tristes". Essa melodia ecoava como um lamento pelos que foram perdidos na luta e como uma homenagem à humanidade que ainda pulsava na resistência, apesar das adversidades e da tristeza que cercavam essa jornada.

Enquanto o grupo avançava pelos corredores sombrios de MekHanTropia, Aila descobriu e alertou Fritz sobre certas fantasmagorias digitais que dançavam ao seu redor. Tais aparições os orientavam, como IAs desertoras, a enfrentarem os horrores das máquinas de controle. A linha tênue entre a realidade e a ilusão finalmente se desfazia, revelando os fantasmas do passado e os medos do futuro, em uma jornada onde a própria realidade se tornava então uma grande projeção fantasmagórica. Contudo, como o grupo contava com instrumentos transbinários de proteção despertados pelos sonhos e incursões transdimensionais de seus integrantes, tais projeções foram tomadas como aliadas para o autoconhecimento coletivo e integração das sombras que ali circundavam.

Acesse a obra pelo link: www.fredecf.bandcamp.com

Após a queda do “MekHanTropo Supremo”, Doktor Fritz encontrou ali um local bem diferente do que seus sentidos poderiam captar até então: um mundo repleto de ossos, que o remeteu às famosas catacumbas que visitara ao passear outrora pelo velho mundo com Nastassia. Tal lembrança despertou uma lágrima de saudades em seus olhos, algo que há tempos não acontecia. Por entre as ruínas da MekHanTropia, descobriu ali vestígios da vida que servia como energia para as IAs condutoras do sistema. Esse lugar se tornou então um templo de renovação e reexistência, um marco zero da inaugurada era da Pós-MekHanTrop(IA), de onde a humanidade começava a reconstruir-se, lembrando-se de suas origens perdidas e, concomitantemente, reerguida agora sem o domínio completo dos algoritmos.

[Relatos sobre MekHanTrop(IA), Ano Zero].

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Notas:

1) Na tradição asteca, a deusa Tezcatlipoca é frequentemente associada a este tipo de espelho. Tezcatlipoca é uma divindade complexa que desempenha vários papéis na mitologia asteca, incluindo o deus do céu noturno, da memória, da beleza e da reflexão. O Espelho de Obsidiana era considerado uma ferramenta mágica usada em práticas divinatórias e rituais religiosos. Acreditava-se que Tezcatlipoca usava esse espelho para enxergar o passado, o presente e o futuro, além de revelar verdades escondidas. Ele era um símbolo de introspecção, autoconhecimento e poder divinatório.

2) Sobre as 3 RVs, ver ASCOTT, Roy. Quando a Onça se Deita com a Ovelha: a Arte com Mídias Úmidas e a Cultura Pós-biológica, in: Arte e Vida no Século XXI – Tecnologia, Ciência e Criatividade, Diana Domingues (org.), São Paulo: Editora Unesp, 2003, p.273-284.

3) A lenda do "Cão Breu" é uma narrativa folclórica presente na tradição oral brasileira, especialmente em ambientes rurais e interioranos. Essa lenda varia em detalhes de região para região, mas geralmente envolve a figura de um cão negro, muitas vezes de olhos flamejantes, que é associado a eventos trágicos. A palavra "breu" etimologicamente remete à escuridão e à sombra, o que sugere uma conexão com a ideia de um cão sombrio ou demoníaco. Este cão é frequentemente visto como um presságio ou mensageiro, anunciando desgraças iminentes. A lenda muitas vezes é interpretada como uma personificação da culpa, do remorso ou de eventos ruins que estão por vir. O "Cão Breu" pode ser percebido como um ser misterioso e sobrenatural, relacionado a aspectos sombrios da psique humana. A presença desse cão na narrativa pode ser interpretada como um alerta sobre consequências negativas relacionadas a ações passadas ou como um símbolo de eventos trágicos que estão prestes a acontecer. É importante observar que lendas folclóricas podem variar amplamente, e diferentes comunidades podem ter suas próprias interpretações e nuances sobre a lenda do "Cão Breu".

4) “Elonions” é uma brincadeira poética, feita por mim, de aglutinação etimológica entre o primeiro nome do bilionário Elon Musk e a palavra em inglês onion (cebola), ambos geradores de lágrimas. 5) “Supay” é considerado como o “Senhor do Submundo” na cultura andina. Em MekHanTropia, há uma lenda que ele é o único ser que consegue exercer influências sobre o “Cão Breu”. Supay é um ser repleto de nuances e complexidades, especialmente quando surge nos estados imersivos da “Realidade Vegetal” por meio dos sonhos dos personagens (geralmente em pesadelos). Esse ser é fundamental para o equilíbrio de Gaia e orienta o Cão Breu acerca de seus “objetivos”, abrindo passagens transdimensionais (transmidiáticas) para essa criatura fantástica.

6) Segundo o professor Ari Riboldi, “o ‘boi de piranha’ é aquele que se submete ou é submetido a um sacrifício para livrar outra pessoa (ou grupo) de uma dificuldade ou da culpa.” Fonte: www.terra.com.br/noticias/educacao/voce-sabia/o-que-significa-a-expressao-boi-de-piranha,9afccb0f8f70f0018f756c348d1b4f452vzon91v.html? . Acesso em 26/01/2024.
7) O termo/conceito poético “Binarismo Anticósmico” foi pensado pelo Ciberpajé. Disponível em: 
ciberpaje.blogspot.com/2021/10/veja-como-foi-se-voce-nao-acompanhou.html Acesso em: 26/09/2022. 

Créditos:

Fredé CF: letras, vozes, músicas (violão, contrabaixo, sintetizadores, samplers, silêncios e ruídos), conto mekHanTrópico e narrativas transmidiáticas.


F.Oak Transmedia 2024.

Pós-créditos:

O que é ser forte e ser fraco?
Na maior parte das ocasiões essa indagação está relacionada ao racional e ao emocional. Como se fosse proibido sentir tristeza ou ser lúdico e sensível, por vezes. Como se só a racionalidade dura e seca fosse o certo, fosse sinônimo de força.
O julgamento de achar que as pessoas são exatas, padronizadas e binárias atordoava Doktor Fritz em seus momentos solitários de reflexão, pois, para ele, a vida era complexa e repleta de sentimentos importantíssimos para evolução. Enquanto isso, o ressentimento imperava no mundo mekHanTrópico, gerando ódio e destruição por todos os lados. Fritz se sentia um alienígena, um peixe fora da água, um animal preso em detenção.
A impulsividade, o querer, para ele eram superpoderes e não uma maldição. Manifestação de amor e afeto eram qualidades a serem exaltadas. Ser romântico, por vezes, era reconhecer algo especial. Não ser absoluto deveria ser o normal. Ser Humano, em geral. Errar, acertar, se arrepender, sorrir, entristecer. Positivo, negativo e neutro. A tríade cósmica vital.
Após um gole seco no vinho tinto que levava consigo em todas as situações, pensou que as únicas coisas certas na vida são a mudança e a despedida. Tudo vai mudar. E iremos sempre nos despedir de coisas, pessoas, ideias e lugares. Inevitavelmente. E, por fim, despedir-se da vida. A fila dos perfeitos é aquela de lá. No fim, vamos todos pro mesmo lugar. 

 



quarta-feira, novembro 15, 2023

Conto: "MekHanTrop(IA) Depois do Futuro" - Escrito por Fredé CF. Confraria Anti-MekHanTrópica. 2019/2023

 


 MekHanTrop(IA)

Depois do Futuro

 

Escrito por Fredé CF. Confraria Anti-MekHanTrópica.

Agosto/2023

 

 

 

 

 

 

 

 

I

 

Vinte e seis de março de 2180 d.M [“depois de MekHanTropia” ou “depois de Messias”, como preferir]. Domingo.  5:55 (horário local).

 

“Sim, eu posso!” Gritava Francisco Valdez ao se expurgar – como todos os dias de maneira programada –, de sua lisergia onírica contraventora. Salta com parte de seu corpo físico da cama que lhe servia de resistência desde as 23:35 da noite anterior, porém se atentando em pisar com o pé esquerdo, que lhe foi concedido como prêmio durante sua temporada no norte do Alaska amamentando clones de bebês mamutes. Nessa Era pós-MekHanTrop(IA), esta tem sido a rotina instituída a pessoas canceladas pelas redes.

Chico Valdez (como é tratado socialmente de forma descontraída) conserva com orgulho e entusiasmo tal superstição, que para ele indica boa sorte no dia que começa. Tal tradição tem origem em sua antiga vila de nascimento, há cento e noventa e oito anos estrelares (conforme contagem anti-mekHanTrópica), a extinta Ludoviqueña, que se situava no que hoje abriga o místico Deserto do Cerrado, terra sem lei e lar dos seres híbridos, ainda mekHanTrópicos, comedores de cabeça.

Com um entusiasmo atípico em relação aos seus semelhantes, Valdez dedica-se, em seus primeiros segundos diários desta jornada laboral, a estabelecer conexões orgânicas com suas entranhas e com o que lhe restava de suas papilas pupilo-gustativas, absorvendo e despachando, em seguida, vitaminas e cápsulas de energia vital. Este hábito sempre lhe traz disposição para enfrentar os imprevistos já estimados em suas ondas neuroxidais – por sinal, as melhores do mercado, compradas em suaves prestações de setenta anos venusianos no portal Akāsha. Tal produto foi um gesto de carinho consigo mesmo, na ocasião de seu último aniversário estrelar, afinal, pensava ele: “eu mereço”.

Após um caudaloso banho morno em seu chuveiro orgânico high tech, sua inconsciência relativa artificial (IRA) ativa sons integrados de músicas antigas, o que o faz ter espamos memoriais de sua infância analógica junto à sua família (exterminada na Revolução Anti-Trabalhista MekHanTrópica – RATM, do ano zero). Valdez acopla seu Dispositivo Intra-Celular Krenakiano (DICK) e mentaliza frases que lhe trazem esperança e o ajudam, de certa forma, a organizar as ideias dispersas antes de ir à Grande Esfera Oxigenada (GEO) gerar energia ao Macro-Organismo Cósmico (MOCO) que habita conscientemente, desde a Grande Revelação Ultra-Shitakeana (GRU) de 2023 (anos terrestres). Neste mesmo ano, conheceu sua parceira Aila, uma Inteligência Artificial ainda em fase de testes, dissidente de MekHanTropia que o forçou acordar, gerando seu cancelamento sistêmico.

Sua função na GEO, além de gerar energia universal caminhando de forma circular em torno da rara estrutura líquida localizada no centro da MOCO, é também aniquilar ameaças internas ao seu corpo, que insistem em travar seu sistema operacional intracelular. Tais travamentos aleatórios geram nele constante irritação, uma vez que tem que regrar a quantidade de cápsulas oníricas diárias ingeridas. Essas cápsulas lhe dão extremo prazer e funcionam como válvula de escape deste novo mundo onde se desligar totalmente é considerado crime planetário irreversível (CPI).

Por falar em prazer, algo tão ilusório no cotidiano de Valdez não poderia deixar de ser documentado. Valdez tem tara por se atentar à forma que as toxinas do ar penetram em seus pulmoxídeos tronco-vasculares. Momentos de ternura permeiam seu imaginário, ao combinar tais substâncias com o som vintage da guitarra obscura de Tommy Iommi. Esse som enérgico ecoa em seus sensores auditivos enquanto sua alma gira na Grande Esfera Oxigenada. Por determinados momentos, ele pensa em como seria se houvesse sido pego dormindo (ou sob o efeito lisérgico das cápsulas oníricas) pelos sensores ultra-magnéticos de MekHanTropia naquela época, ao invés de ter sido despertado pela sua amada Aila. A saudade aperta os fluxos binários de Valdez, quase o fazendo chorar e assim se entregar ao software de controle da imaginação e pensamentos líquidos, implantado em seu cérebroxideo tronco-vascular no ano zero.

Outra importante função de tais caminhadas, é que ele pode contribuir, mesmo que minimamente, em manter o planeta na direção correta quanto ao seu movimento de rotação, movimento este que foi bruscamente alterado na passagem do longínquo ano terrestre de 2018 para 2019, após o Grande Estilhaçamento Cósmico Atemporal (GECA). Tal fenômeno foi provocado por lançamentos norte-americanos na Base de Alcântara, antigo estado brasileiro do Maranhão, o que forçou o planeta a girar de maneira retrógrada, retornando, naquela ocasião, cerca de 55 anos.

Neste período de instabilidade temporal, algo curioso aconteceu e só foi percebido anos mais tarde, com a conquista definitiva do espaço sideral: os planetas deixaram de ser planos e se tornaram esféricos. Tal fenômeno ainda hoje é estudado e gera dores de cabeça e discussões infindáveis nas rodas da alta ciência mundial. Alguns creditam o ocorrido à inversão dos pólos da direita e da esquerda terrestre, quando a Terra ainda era plana. Já outros cientistas, filósofos e artistas mais radicais consideram que o fenômeno se deu como uma espécie de Big Bang invertido, causado pela retroatividade de Mercúrio somado a crescente onda das redes sociais que, de certa maneira, iniciou a extinção do pensamento crítico já naquele momento, nos aproximando do que somos hoje e abrindo brecha para o golpe neofascista instaurado.

Na contramão do que resultou hoje esse fracasso chamado humanidade, Valdez é um dos poucos humanoides que ainda detém certa clareza quanto à racionalidade, embora prejudicada pelo software de controle da imaginação e pensamentos líquidos. Ele por vezes atribui essa semi-lucidez ao fato de ter penetrado desde cedo no mundo das artes e se desconectado das redes sociais a tempo de não ser completamente subtraído pelo Grande Estilhaçamento de 2019, quando ainda era uma criança, se comparado a hoje em dia.

Muito espiritualista, porém sempre preocupado com suas habilidades racionais, Chico Valdez busca de forma recorrente o seu backup cérebroxidal por meio de um recurso que lhe foi ensinado por sua mãe antes de partir: a meditação e também a leitura. Assim ele consegue ficar invisível ao software por alguns momentos. Pouco antes de se conectar aos espíritos ancestrais que regem sua vida semi-infinita neste plano mundano, Valdez se dedica a visualizar aflições que podem trazer cargas negativas ao seu sistema cognitivo, em um processo de auto-cura por meio do autoconhecimento constante de seu organismo híbrido. Tais práticas ritualísticas promovem nele uma entropia extasiante que o projeta a outras dimensões, que, pelo que conhecemos até então, se contabilizam em 26, coincidentemente o número do dia de seu aniversário. Essas projeções extra-dimensionais confundem um pouco a imaginação de Chico, pois mexe com suas emoções mais profundas ligadas aos seus antepassados.

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II

Sua mãe, Martha Valdéz com 83 anos e seu pai, Ernesto “Sid” Ortega com 82, lideravam a luta pela diminuição do tempo de trabalho e pela possibilidade de aposentadoria quando atingissem os 95 anos. Dentre suas principais reivindicações estava o direito ao sono e a possibilidade de escolha em não viver conectado ao sistema de MOU. De origem ludoviqueña e cigana, seus antepassados eram andarilhos e atores informais que foram capitalizados, escravizados e, posteriormente, como já dito, exterminados, pelo terrível ditador Jaymoro Bowgued, um neo-fascista miliciano que obteve o controle, ao sul do planeta, dos primeiros chips implantados ainda no início do século XXI, se tornando um dos primeiros imortais excrementóides que destruíram a humanidade.

Os excrementóides são uma raça surgida antes da Grande Revelação Shitakeana. Por meio de um chip (popularmente chamado de “chit”, uma brincadeira em alusão às palavras “chip” e “merda”, típica dos excrementóides) que converte os gases exalados por dejetos e excrementos animais em energia vital. Tais seres usam essa energia para se manterem imortais. O primeiro excrementóide a se firmar no poder e iniciar a devastação foi Ronald Prumt, o alaranjado. Prumt disseminou ideias de ódio e exclusão entre a humanidade semianalógica pré-shitake, provocando mortes e violência extrema que serviram como amostras para realização de testes do seu “chit”, projetado pela NASA em Marte. Anos mais tarde, o excrementóide se aliou a outros seres de diversas dimensões e ampliou sua onda devastadora sobre incautas sociedades com baixa educação, dando início à implantação de chips análogos aos “chits” em toda a humanidade, o que levou à transformação em massa fétida de excrementóides.

A devastação foi amplificada com o avanço e popularização seletiva da tecnologia e da ciência, que serviram aos excrementóides como chave de dominação, a princípio planetária e atualmente em expansão pelo Universo. Ao instalar o “chit” em praticamente toda a humanidade por meio de alimentos transgênicos, Prumt, Bowgued e outros crápulas excrementóides – como gostam de ser chamados –, colocaram em ação o plano de alienação seriada, injetando realidades simuladas na imaginação das pessoas e transformando toda a humanidade em “robôs” movidos à informações falsas, enganando assim o cérebro em relação ao que é absorvido pelos sentidos humanos (ainda cinco, naquela época) e eliminando o pensamento crítico, proibido desde então.

Outro fator crítico que contribuiu com tudo isso foi o envenenamento por agrotóxico e rompimento de barreiras das até então populares águas doces potáveis, forçando assim o processo de dessalinização da água marinha, o que matou grande parte da população que não tinha renda para adquirir o novo e caríssimo produto, agora comercializado com exclusividade pelos excrementóides, que forçaram tal lobby por serem, desde antes da devastação, proprietários das patentes da principal tecnologia de dessanilização.

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III

“E assim chorou Zaratustra”: frase surge inexplicavelmente no imaginário pré-programado de Valdez. Tal frase gera algumas conexões imprevistas em suas ondas cérebroxidais, o que gerou palpitações de ansiedade em seu organismo.

O “super-homem” idealizado por Nietzsche no longínquo século XIX se tornou hoje, fora daquele contexto, uma espécie de super-vilão dele mesmo, com sua infinita ambição, achando que tudo pode, mergulhou-se em um abismo de expectativas frustradas e inatingíveis, boicotando sua inteligência, razão e vontade, força geradora de ímpeto e ação. Se tornou aquilo que mais repudiava. Se tornou um monte de merda, a pior espécie de merda. O herói sem limites que desafiou a natureza se perdeu da razão e também da emoção, mais ainda do que já havia se perdido em tempos remotos, de trevas pré-shitakeanas. Enlouqueceu e se esqueceu que ele também é natural da mesma fonte que todo dia destrói. As trevas foram apropriadas por ele. O que a priori se apresentava como “herói” que salvaria-nos todos do obscurantismo das instituições, se tornou, ele mesmo, um saco fétido de excrementos, apodrecido e desprovido de qualquer resquício de amor. Provando o próprio veneno, hoje a população vive inundada de agrotóxicos e consumida por sangue, lama e destoadas vibrações que suga sua energia vital de dentro pra fora todos os dias, corroendo a carne e expondo as vísceras disfarçadas de felicidade na liquidez da rede mundial. Vísceras essas que revelam microcosmos que talvez criaturas como nós habitem e se desenvolvam matando a natureza que somos pra essas minúsculas criaturas.

O “super-homem” excrementóide se mostra assim, de certa forma, como um vírus mutante destrutivo ou um carcinoma que insiste na autofagia. Ele consome o amor vibracional da humanidade em geral somente para aniquilá-lo, gerando o ódio que o sustenta. A única saída talvez seria entender definitivamente a máxima de que estamos no universo e o universo está em nós. Evoluímos por um lado, sem dúvidas, porém criando condições relacionadas a sustentação do Ego por meio de uma ilusão de conforto baseada na destruição de nosso habitat. Esquecemos, ao assumir as rédeas da própria existência nos desvinculando de explicações transcendentais sobre a existência, também de assumir responsabilidades sobre nossas ações. De tão ingênuo, a ânsia por poder e domínio dos recursos mundiais cegou o super-homem nietzschiano para a sua essência cósmica natural, se perdendo de si mesmo em sua própria loucura. Somos o macaco louco que nega e destrói sua origem, sua família e sua morada. Uma loucura de achar que não há limites. Loucura em não ver que às vezes um limite pode ser uma proteção.

Valdez, por um instante decisivo acorda imerso em tais devaneios oníricos e, inacreditavelmente se expande em consciência enquanto pensa que talvez seja preciso inverter toda essa lógica. Olhar pra dentro de si e se (re)conhecer sobretudo enquanto o animal que é. 

- “É preciso acordar definitivamente”. Pensa em voz alta em meio às buzinas cegas estressadas que reluzem no espaço à sua volta.

- “Acordar antes que seja tarde e esse agora infalível super-vilão (em constante mutação) cresça dentro de cada pessoa a ponto de se tornar imortal à custa dele mesmo. À custa de todos que não tem condições de viver para sempre, pois são desprovidos de recursos”.

Nesse momento, Valdez pensa em como se desconectar de toda essa loucura que está imerso, amarrado, enclausurado. Porém, para o seu maior desespero, se vê imobibilizado em sua condição. E-Mob(ilizado), por melhor dizer.

 

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O FINAL?

Valdez é hoje uma sinapse gráfica virtual auto-conscientemente esquecida, porém eternizada por uma Mobgrafia[i]. E provavelmente deve, por todo o sempre, reviver aquele mesmo momento decisivo congelado pela eternidade, sem poder estabelecer novas conexões temporais além de seus limites ali enquadrados digitalmente em 15 por 21 centímetros.

Ao se perceber nessa condição, Valdez toma consciência que as únicas conexões externas possíveis a ele são no imaginário líquido da sociedade por meio de indivíduos que com essa imagem entrarem em contato. Mais estranho que uma ficção, Valdez está documentado para atuar na imaginação de outros seres, como um neurônio que acende em sua individualidade visando o exterior neural, se esquecendo da lógica conjunta inexorável a sua existência. Uma espécie de carcinoma Egóico que espalha e produz o seu próprio declínio inconscientemente ou consciente demais pra pensar.

Cego demais pra enxergar que o inferno que tememos habita em nós mesmos, Valdez vacilou na simples compreensão de que estamos conectados intrínseca e sistematicamente a tudo que nos é exterior, principalmente pelo o que nos é interior. O mesmo macrocosmo externo existe internamente, e isso agora toma conta de seu desespero.

A Grande Revelação Shitakeana, que versa sobre os diversos organismos que compõem um ser maior universal e que, além desse ser maior universal, existem outros seres em um loop infinito de organismos e conexões, omitiu ou não se atentou ao mesmo movimento no sentido interior dos organismos, talvez por excesso de poder ou por distração. Uma coisa tão óbvia: somos também um ser maior universal para outros micro-organismos que dependem de nós para viver. Mesmo com apenas 13,3% de carbono em seu corpo, ainda levamos vida e cada vida dessas que levamos, leva também vida, de maneira infinita.

Valdez, inconformado com tal revelação que lhe ocorreu, deixou escapar uma lágrima de nostalgia, ao lembrar-se da lição de esperança que sua mãe Martha e seu pai Ernesto lhe disseram um dia em sua infância analógica, de que "juntos ascendemos, separados caímos". A partir de então, Valdéz adicionou um acento ao seu nome, pois era a única coisa que podia fazer visando causar algum tipo de reação em cadeia no caos da existência. Assim, reconheceu-se pixel, se tornou luz. Ascendeu. Transcendeu.

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Texto inicialmente escrito por Fredé CF em devaneios, entre a loucura e a lucidez, no calor goiano do início de 2019 e finalizado em 2023, com alguns graus acima.



[i] Tipo de fotografia feita por smatphones.


ArteZine: "Pós-MekHanTrop(IA)", de Fredé CF (2023)












ArteZine: “D3sp3rt4r/4d0rm3c3r (c4n1 bu1u/m3kH4nTr0p14)”, de Fredé CF (2022)


Clique na imagem para acessar a versão digital do ArteZine


Este é o sétimo Cria_ciberzine, produção dos integrantes do grupo de pesquisa Criação e Ciberarte (Cria_Ciber), liderado pelo professor-pesquisador e artista transmídia Edgar Franco (@ciberpaje).

Leia o ArteZine pelo link: https://www.marcadefantasia.com/parceiros/cria_ciberzines/amanhecer/amanhecer.pdf 

 
Editores do Criaciberzine: G. Andraus e Léo Pimentel
Coord. geral do Ciberpajelanças: Edgar Franco (Ciberpajé)

Os criaciberzines trazem uma dimensão das pesquisas e produções dos membros do grupo. Neste Criaciberzine, intitulado “Despertar/Adormecer”, artezine do artista multimídia Fredé CF, é uma obra integrante do universo transmídia de “MekHanTropia”, criado pelo autor em seu doutorado em Arte e Cultura Visual. O artezine é composto por narrativas que se tocam e são expandidas por QR Codes, além das imagens fotográficas, desenhos manuais, desenhos digitais e experimentações com inteligência artificial. O texto narra sobre a institucionalização distópica do sistema necropolítica e psicobinário de MekHanTropia e suas relações com os sonhos, simulacros e simulações.

Frederico Carvalho Felipe (a.k.a. Fredé CF) (@fredecf)
Artista multimídia. Doutorando e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG). Professor de Artes, Audiovisual, Fotografia, Ling. Visual, L.I.V., Storytelling e Transmídia. Músico, poeta, VJ, cineasta, fotógrafo, contador de histórias e performer amador (no sentido de amar). Membro dos grupos de pesquisa “Representação da Alteridade no Cinema, na Animação e Novas Mídias”, coord.: profa. Dra. Rosa Berardo; e “Criação e Ciberarte (Cria_Ciber)”, coord.: prof. Dr. Edgar Franco.
 
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