Me Aluga Não!

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Goiânia, Goiás, Brazil
um entretenimento barato. Agite antes de usar. Não jogue fora em vias públicas. Mantenha a cidade limpa. Desculpe pelo transtorno. Os benefícios ficam.

quarta-feira, setembro 25, 2019

Ilusão Distópica


O que é a verdade?
Seria a realidade absoluta ou não?
Os sentidos, as lembranças, a fantasia da imaginação.
Fantasmas.
Miragens.
Imagens.
Ação.
A consciência é intenção.
A existência: solidão.
Cada um com sua tela.
Cada qual com seu quadrado.
Dor e sofrimento, destinos já traçados.
O amor traz alegrias.
O ódio deixa separado.
No deitar do corpo da vida, 
relembrar todo o passado.
O que ficou pra trás?
O que me trouxe de lá?
As melhores coisas são sem valor.
Só existem no contraste com a dor. 
Sorrir, prazer, amar...
não encantariam se sempre estivessem lá.
Só percebo o que oscila. 
Cuidado ao mudar de fila.
Em qualquer momento o instante trai.
Rompendo um pedaço do tempo que esvai.
E o tempo?
Será que existe? 
Pra você,
insiste ou resiste?
Somos nós o tempo ou o tempo somos nós?
Por quanto tempo ainda calarão a nossa voz?






domingo, setembro 22, 2019

O Triste Fim de Jair Messias Bolsonaro, por José Eduardo Agualusa.

Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos. Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.”

Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada. Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”
O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.
Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.
— Largue a pistola, não vale a pena!
A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:
— Quem está aí?
Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos. Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:
— Porra! Quem é você?
— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.
— Você não é real!
— Não?
— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!
O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:
— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.
— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.
— Vou levar você para a floresta.
— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reacção alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro…
O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:
— Acabou!
Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:
— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!
— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.
Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério. Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio. Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio. Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio. Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio. As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio. As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio. O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.
* Publicado originalmente na revista “Visão” de Portugal.

terça-feira, agosto 06, 2019

Sobrevivencialismo

O que não podes criticar,
controla sua vida.
Você não é dono de si?
Quando já não podes questionar: 
Ditadura instituída.
Quais direitos perdemos hoje?

Nepotismo
Censura 
Controle de informação 
Envenenamento (agro é Tóxico)
Miséria 
Alienação (Sleep slowly)

Quem sabe,
acordamos...
Neofascista é fascista.
Bicho de goiaba é goiaba.
Acordamos,
quem sabe? 

O que é que te enquadra?
Espelho de merda.

domingo, julho 28, 2019

A Sombra


O que é essa angústia? 
Que me fere o peito
Que me mata os sonhos
Que me retira o freio.

O que diabos é isso?
Que me tira o sono
Que me cega os sentidos
Que me embrulha o estômago. 

Perdido sem propósito 
Derrotado por mim mesmo
Fracasso enquanto bicho
Decepção enquanto gente.

E agora, onde vou?
Pro inferno me encontrar
No paraíso já não há 
Mais espaço pra mim.

E aqui, quando estou?
Em tempos de surtar
Com dificuldades de me amar
E sem forças pra dançar.

A Sombra assombra.
Já nem posso mais sentir.




quinta-feira, julho 25, 2019

[Lançamento] "Cão Breu Pós-humano", álbum introspectivo de Fredé CarFeli conta com participação especial e arte de capa do Ciberpajé

 Link para download e/ou audição em streaming do álbum:

 Cão Breu Pós-humano é um projeto musical introspectivo de auto-reflexão de Fredé CarFeli, radicado em Goiânia. O primeiro CD do projeto (que é uma espécie de spin off da banda Cão Breu), nasceu inicialmente como uma homenagem à obra do Ciberpajé (Edgar Franco), inspirado por seus quadrinhos e aforismos. Fredé apresentou as 4 primeiras músicas ao Ciberpajé que gostou muito da homenagem o do estilo despojado folk psicodélico criado nas faixas, com isso o Ciberpajé foi convidado a participar do primeiro CD autointitulado do Cão Breu Pós-humano, gravando vozes e aforismos inéditos para algumas faixas, além de criar a arte de capa e todo o projeto gráfico do álbum que acaba de ser lançado pela Lunare Music (SP), ouça-o aqui e faça download  com as artes completas. 

Fredé fala sobre as inspirações e o conceito da obra:

"Esse álbum musical foi todo gravado e mixado apenas com o meu celular e surgiu inicialmente como uma homenagem à obra do Ciberpajé (a.k.a.Edgar Franco), inspirado em seu álbum em quadrinhos “Oráculos”- com HQs baseadas no Tarô e I Ching - e em seus aforismos iconoclastas. De forma geral, “Cão Breu Pós-humano” tematiza sobre uma possível projeção futurística distópica da lenda do Cão Breu, se amparando, durante a jornada, no universo transmídia da “Aurora pós-humana”, nos aforismos e na obra “Oráculos” do Ciberpajé. O nome “Cão Breu” remete etimologicamente ao “demônio” (cão) e à sombra e escuridão (breu). Circunscrita ao ambiente rural e interiorano, essa lenda, presente na oralidade cultural brasileira, versa sobre um cão negro de olhos flamejantes, anunciador de uma tragédia proveniente da personificação da culpa e do remorso, que desemboca aqui artisticamente em uma jornada de autoconhecimento e transcendência, além de dar nome à banda que faço parte desde 2015 ao lado de Gustavo Ponciano, Guilherme Tell e Evandro Galo, porém este é um projeto pensado subjetivamente por mim, desvinculado e independente da banda. Após ouvir as primeiras faixas gravadas o Ciberpajé entusiasmou-se com o projeto e gravou aforismos exclusivos com sua voz para estabelecer sua participação especial, e também criou a arte da capa e encarte que mixa inspiração visionária enteogênica no desenho base e efeitos gerados pela inteligência artificial Deep Dream."

Das sete faixas do álbum (numeradas no encarte de 0 a 6)  seis são baseadas no violão, voz e algumas percussões, criando uma atmosfera folk mixada à psicodelia nas vozes e efeitos sonoros. Já a faixa que fecha o CD, Viagem Interplanetária (Transdimensional Lycanthropy) investe em uma psicodelia eletrônica. As letras misturam aforismos do Ciberpajé, textos de suas HQs e poemas e reflexões de Fredé CarFeli.

A arte do CD foi criada pelo Ciberpajé a partir de uma experiência visionária com o enteógeno Psilocybe cubensis, ela retrata um cão lobo-guará pós-humanista e utilizou em sua finalização a rede neural e Inteligência artificial Deep Dream para geração das texturas da imagem. Confira abaixo o encarte completo do CD com todas as letras, ele pode ser ouvido em streaming e ou baixado nesse link da Lunare Music. Segue abaixo o encarte feito pelo Ciberpajé:










domingo, abril 21, 2019

O inverno é agora: Game of Thrones e as metáforas narrativas



A obra audiovisual seriada Game of Thrones, retornou no dia 14 de abril, após dois anos, com o primeiro episódio de sua última temporada: a oitava da série. Neste primeiro episódio, exibido pelo canal HBO com o sinal aberto em vários lugares do mundo, alguns pontos destoaram dos elementos que caracterizaram a série enquanto trama e narrativa nas sete temporadas anteriores, mas que, devido à eminência do fechamento do universo ficcional, pode-se justificar em relação à história como um todo, trazendo algumas viradas dos personagens que seguem se digladiando em direção a um “buraco negro” desconhecido.
A princípio, é importante destacar algumas definições em relação às nomenclaturas no universo audiovisual. Neste sentido, temos a história como a sequência de eventos principais descritos de forma abrangente, sem detalhes específicos. A história de um filme geralmente focaliza nos problemas e objetivos dos protagonistas, nos conflitos que são enfrentados por eles. Quando descrevemos um filme para amigos, por exemplo, contamos a história, as motivações e empecilhos na vida dos personagens, como o filme acaba, ou seja, a estrutura básica.
Já o argumento é tido como uma motivação inicial no processo de construção de uma história. Podendo ser uma problematização, uma vontade, uma pergunta, um tema, etc. No caso da série em questão, a história parte do argumento de busca pelo poder e domínio do trono de ferro por personagens que se julgam merecedores dele. Porém, em meio a uma atmosfera de disputas políticas e ambientação medieval, existe ali um fator antagonista que vai além das batalhas entre os humanos pelo referido trono: o sobrenatural. Assim, no primeiro episódio da série, lá na longínqua primeira temporada, é introduzida, em sua cena inicial, a noção de que o mundo ficcional que ali será exposto não se configura exatamente como o nosso. A realidade pela qual os personagens transitam na série trará seres que estão além de nossas experiências cotidianas, como mortos-vivos, gigantes, dragões e corvos de três olhos. Em outras palavras, a série não é histórica e nem traz uma pegada mimética documental, muito pelo contrário: o imaginário e a fantasia permitem-nos extravasar e isso já é colocado no início para podermos trabalhar assim as nossas expectativas. Mas, de qualquer forma, fica a reflexão: não seriam, mesmo, as ficções formas de produção da realidade?
Um passo a frente na análise e já nos aproximamos das definições de trama. Essa ideia aparece em alusão às tramas de um tecido, um conjunto de fios que se cruzam e assim geram determinadas ações em um filme (ou série, como em Game of Thrones). Ou seja, podemos visualizar a trama como a sucessão de acontecimentos que constituem a ação de determinada obra narrativa. A trama aqui parte do conflito que é estabelecido a partir de um golpe que foi instituído a um antigo rei louco e perverso que foi assassinado e, durante todo o percurso na obra, os personagens agem motivados por essa questão, com diferentes forças e pontos de vista sobre temas pertinentes como justiça, honra, poder, família, espiritualidade, confiança, entre outros. A construção de cada perfil psicológico de personagem nos aproxima e nos afasta deles (enquanto identificação como espectador), por serem demasiado humanos em suas forças e fraquezas. Cada personagem, com sua própria linha do tempo de percurso na narrativa (seja de evolução ou decadência de caráter), cruza com outros personagens em uma trama que se estabelece por meio dos temas tratados pela série.
Porém, o que mais se destaca em Game of Thrones e, talvez, o que garanta o grande sucesso da obra é a narrativa, ou seja, a forma como é contada a história audiovisualmente, por meio das escolhas feitas pelos autores em relação aos planos e sequências, compostas por enquadramentos, movimentos de câmera, sons, ruídos, metáforas visuais e sonoras, entre outros elementos próprios desta linguagem. Então, sendo a história relacionada a “O que” acontece, e a trama ligada a “Por que” acontecem os conflitos, a narrativa está aqui diretamente associada ao “Como” contar a história, e é nisso que a série surpreende: no estilo.
Estamos habituados a algumas diferentes maneiras de contar histórias como: a narração linear, aquela que conta os fatos de acordo com sua ordem cronológica, “de A a Z”, sem grandes interferências ou reviravoltas; narrativas invertidas, contadas de trás pra frente ou por flashbacks e elipses; narrativas em paralelo, com episódios que são intercalados sucessivamente; narrativas por diferentes perspectivas, estabelecendo pontos de ligação entre as trajetórias dos diversos personagens, conhecidas como “contraponto dramático”. Pessoalmente, independente da escolha, me encantam as narrativas que subvertem o habitual e propõem maneiras alternativas de contar histórias e experimentar diferentes possibilidades de leitura, nos tirando de alguma forma do lugar comum.
Durante toda a série, a orquestração dos personagens, ou seja, como os personagens veem os conflitos e se relacionam com eles e entre eles, é pensada de forma a colocar em xeque alguns aspectos que posicionam o espectador em um universo maniqueísta. Porém, os autores fazem que tudo isso esteja de alguma forma contrastado e conectado, entrelaçado, como em uma trama de tecido, de maneira a alcançar um destino comum, como o centro de um espiral ou um redemoinho, nos surpreendendo com rompimentos e reviravoltas que talvez não estivéssemos prevendo ou atentos o suficiente para “ler” nas entrelinhas audiovisuais, mas que desembocam para um ponto de fuga comum narrativo. Essa arquitetura conceitual da série nos força, de certa forma, a visualizar tudo como sua abertura já sugere: em “perspectiva”, em “plano geral”, por cima, visando o todo a partir do específico e o específico a partir do geral.
A série trabalha muito bem as metáforas audiovisuais que trazem informações valiosas sobre os desdobramentos que o universo ficcional pode tomar. Além disso, os personagens atuam em benefício da história de forma geral e não a partir de objetivos específicos na trama; por isso mesmo aprendemos a ser desapegados já que muitos morreram ao longo destes anos.  
A metáfora principal da série vem do contraste entre “fogo” e “gelo” e permeia os diversos níveis da narrativa, desde elementos relacionados às personalidades e emoções dos personagens, a características de cenários, iluminação, fotografia, constituição de personagens (humanos e sobrenaturais), símbolos e nomes das famílias/clãs, entre outros aspectos formais que compõem a obra. Todo universo proposto se conceitua e é conduzido nesta dicotomia entre o “quente” e o “frio”, que por sinal sempre é anunciada porvir pela célebre frase “the winter is coming”.
Neste início da última temporada, todas as pontas parecem começar a se amarrar, configurando um fechamento que já vem sendo indicado por meio de sentidos lapidados em cenas anteriores, tidas na ocasião como aleatórias ou herméticas. Um exemplo disso é a visão que teve a personagem Daenerys Targaryen, na segunda temporada, com o trono de ferro envolto à neve, o que pode indicar metaforicamente, uma possível relação dela com o sobrenatural e com os White Walkers, ou que ela se transformará na grande vilã da série e terá seu coração congelado por não aceitar o fato de Jon Snow (agora Aegon Targaryen) ser o verdadeiro herdeiro do trono.
A propósito, a história de Jon Snow também é um fator a se atentar e refletir com cuidado. Alguns elementos transformaram nossa percepção em relação ao personagem durante o decorrer da série, quando foram reveladas, por meio de visões e flashbacks, sua origem marcada pela movimentação do fogo ao gelo e ao que tudo indica de volta ao fogo como Targaryen. A princípio bastardo e excluído, Jon questiona por sua própria existência o espectador, colocando dúvidas sobre as certezas em relação às verdades construídas acerca dos personagens. Por ser de fato um Targaryen legítimo e herdeiro do trono, mas ter sido criado como bastardo pelos Stark, o personagem teve proteção por sua vida enquanto criança e também adquiriu a força moral típica deste clã, o que, no entanto, faltava aos Targaryen, elevando assim o personagem à posição de “herói” de toda a história.
No primeiro episódio da última temporada, algumas pistas também foram deixadas no que tange à confiança entre Daenerys e Jon, que, por sinal, protagonizaram a cena mais fora da curva até o momento. Em um rompante de ternura destoante da crueza que a série traz, o voo cavalgante nos dragões e o beijo caliente na cachoeira congelada remete a cenas clássicas de comédias românticas, entretanto, enfatiza a direção que está tomando a relação entre os dois e crava o conceito dicotômico entre “gelo” e “fogo” que permeia a série.  
Com um olhar um pouco mais além, percebemos, ainda no episódio, desconfianças por parte das irmãs Stark, além do diálogo de Samwell Tarly tanto com Daenerys quanto com Jon, orientado por Bran, como em uma condução narrativa. Outro ponto alto e impactante do episódio inaugural desta última temporada, no que tange à significação, é o retorno do símbolo em espiral agora formado por membros humanos dilacerados em chamas e um garotinho no centro, o que remete novamente à narrativa e suas conexões conceituais e metafóricas.
Em entrevista ao New York Post, Dave Hill, escritor de Game of Thrones, comentou acerca do significado deste que é um dos símbolos mais importantes da série e que os White Walkers costumam desenhar nos lugares que passam: “Como vimos com o Bran e o Corvo de Três Olhos, o símbolo em espiral era sagrado para os Filhos da Floresta, que criaram o Rei da Noite sacrificando um homem capturado, em uma espiral de pedras. Então, o Rei da Noite adotou o símbolo em uma espécie de blasfêmia, como Satã com a cruz invertida”. A forma em espiral já apareceu em vários momentos ao longo da série, ganhando grande repercussão quando Bran Stark testemunhou em uma de suas visões a criação do Rei da Noite pelos Filhos da Floresta, na sexta temporada. As metáforas utilizadas no audiovisual, de maneira geral, favorecem a imersão do espectador por meio de relações semióticas e, muitas vezes, contribuem para o estabelecimento de conceitos importantes na obra por meio de símbolos sonoros e imagéticos. 
Como diria o jornalista e escritor Arthur Koestler “O próprio fato de que alguma coisa me lembre de outra pode se transformar numa potente fonte de emoções.” Desde os teóricos russos do cinema, como Kuleshov, Eisenstein e Pudovkin, sabemos que o sentido no filme é formado a partir a justaposição sequencial de planos, de acordo com a intenção do narrador (cinegrafista-diretor-montador) em relação à percepção do espectador. A montagem cinematográfica é tida assim como uma das principais geradoras de sentido no filme, por meio da organização dos planos. As metáforas vêm à tona nesse movimento em diálogo com a iluminação, os cenários, a maquiagem, o enquadramento, as atuações, os sons, as elipses e raccords, entre outros elementos de linguagem que contribuem para dar novas significações às cenas e aos personagens. Assim, o universo ficcional se expande e se mostra mais interessante, dilatando nossa imaginação em busca de conexões que, a priori, não se estabeleceriam e abrindo lacunas no imaginário do espectador.
Teorias sobre o fim da série à parte, o que torna, a meu ver, a obra genial é a excelência na utilização da linguagem audiovisual. Enquadramentos de tirar o fôlego, trilha sonora e sonoplastia emocionante, mise-en-scéne impecável, produção estratosférica. Tudo isso articulado com personagens marcantes e muita fantasia e imaginação. Os personagens aprendem pequenas lições no decorrer de toda a obra e, assim, se transformam progressivamente, tornando-se muitas vezes irreconhecíveis, porém sem perder de vista o “olho do furacão”, o “buraco negro”, o “centro do redemoinho”, da espiral a que todos são conduzidos e que não temos muito claro aonde dará, pois transporta a novas possibilidades de realidade naquele universo e consequências do percurso traçado até então na guerra constante entre o frio e o calor que transfiguram o mundo. Mas uma coisa é certa: o inverno enfim chegou!
Por isso, algumas reflexões são imperativas após oito temporadas: Será que todos irão morrer? Será que Jon irá mais uma vez renunciar ao poder? Será que Daenerys aceitará a ideia de que Jon é seu parente e, mais do que isso, o herdeiro direto do trono? Qual a relação entre Bran Stark e o Rei da Noite? Será que Cersei Lannister irá deixar de ser tão perversa e se transformar em aliada contra os White Walkers? Será que o centro do redemoinho é o Rei da Noite? Em breve saberemos todo o desfecho para essas questões e, apesar do tom melodramático do primeiro episódio da última temporada, a série segue sendo uma das obras mais grandiosas já produzidas audiovisualmente. A muralha tão simbólica na série foi rompida. As fronteiras da civilização estão cada vez mais fluidas e diluídas em dúvidas que em certezas. A única certeza que temos é de que Jon Snow continua não sabendo de nada e por isso talvez nos identifiquemos tanto com ele. Vivemos na ilusão ingênua de parecer entender o mundo e, com isso, acreditamos ser aquele que sabe de tudo nessa era de pós-verdades absolutas. Creio que o equilíbrio está nessa busca interna, em nós mesmos, por meio de imagens e sons que estão à escuta de realidades complexas, não à procura de sentidos simples. De dentro pra fora e com pontes ao invés de muros.


*Texto de Frederico Carvalho Felipe (Mestre em Arte e Cultura Visual. Especialista em Cinema. Bacharel em Relações Internacionais. Professor de fotografia, cinema, produção audiovisual, semiótica, linguagem visual e filosofia. Baixista nas horas vagas. E-mail: fredcfelipe@hotmail.com).

sábado, outubro 27, 2018

O Pé pode ser Pequeno, mas o Ódio é Grande.



Por Frederico Carvalho Felipe*


Nos últimos meses, com as eleições em voga em nosso país, vivemos uma polarização social calcada em premissas maniqueístas que se assemelham às narrativas melodramáticas que o cinema utiliza-se com frequência. A dicotomia de discursos e narrativas midiáticas expostas por cada candidato molda opiniões e ideologias e também constrói personagens em uma mise-en-scène onde todos os elementos que a compõe se destacam e agregam valor à trama, as vezes de maneira dramática, outras trágicas e até cômicas, porém sempre narrativas e repletas de signos que representam de certa forma a nossa sociedade. No Brasil, o tom das pornô-chanchadas dita muitos acontecimentos nesse pleito, com suas esculhambações, deboches, alegorias, teor sexual grotesco explícito e hipocrisias. Tecendo uma mescla de ficção-científica distópica, manipulação midiática, complô, fugas, facadas, viradas e broxadas, a atual fotografia política do país expõe suas vísceras em uma espécie de novela repleta de reviravoltas, cujo roteiro final se oculta de todos, inclusive dos atores e equipe, até o fim, como foi em A Próxima Vítima, de Sílvio de Abreu, exibida pela Rede Globo em 1995.
Em meio a esse clima de terror e comédia, típico do “terrir” tupiniquim levado outrora às telonas por nomes folclóricos do cinema de invenção brasileiro, busquei em uma animação comercial o ponto de partida deste texto, intitulada “Pé Pequeno” (EUA, 2018, Direção de Karey Kirkpatrick). Entrei na sala de cinema sem grandes expectativas em relação ao que iria ver e presenciei um filme que, apesar de seguir a velha fórmula narrativa e de pouco propor artisticamente e enquanto linguagem audiovisual, em alguns momentos transcende uma lenda e nos abre a imaginação para algumas possíveis interpretações e reflexões acerca de nosso contexto histórico-social atual mundial e local.
Criações artísticas provenientes do imaginário popular e ricas em elementos simbólicos ocupam um espaço importante entre o racional, o mágico, o sagrado e o profano no que diz respeito às formas de representação em nossa cultura.  Comunidades em diferentes períodos e locais ilustram seus medos, angústias, crenças, experiências, percepções e expectativas de futuro de diversas maneiras. O homem, em sua trajetória, procura dar sentido ao caos da existência e se situar no mundo por meio de mitos e lendas que abordam, muitas vezes, seres fantásticos. Tais seres integram uma área sombria configurada a partir de temas que ainda refletem certo mal-estar e inquietação em nossas vidas, como a morte, a angústia, a violência, a culpa, o diferente, o estranho, o “outro”, entre outras denominações. Tais temas são bastante abordados nessas eleições, que remetem inclusive à ecos de um período sombrio já vivido por países como Alemanha (com Hitler), Itália (com Mussolini), Espanha (com Franco), Portugal (com Salazar), Chile, Brasil, Argentina (com suas respectivas ditaduras), entre outros.
Retomando o filme, é abordado o mito do Pé Grande, bastante difundido na América do Norte e calcado na lenda dos Yetis: seres gigantes, abomináveis, peludos e ferozes que vivem na neve e são temidos e combatidos como monstros pelos seres humanos. No filme, que tem um tratamento visual e sonoro incrível, tais seres vivem no alto de uma grande montanha situada acima das nuvens e os seres humanos são tidos como um mito, o que dá nome ao filme e causa medo nos Yetis: os “Pé Pequenos”.
Os Yetis seguem leis próprias baseadas em lendas bastante parecidas com as lendas antigas da história da humanidade, as quais são relatados seres poderosos que regem e habitam o mundo. Tais lendas são tratadas como dogmas que se estabelecem pelo discurso do medo, em relação aos indivíduos que, por isso, temem em desobedecer tais “cláusulas” pétreas de tal sociedade. Uma delas diz respeito a nunca ir abaixo da montanha, além das nuvens, o que remete ao famoso Mito da Caverna de Platão e, também de forma alegórica, às manipulações diversas que estamos sujeitos em nosso cotidiano pela mídia, instituições religiosas, políticas, fake news, entre outras.
Posteriormente, na narrativa é mostrado que tais discursos dogmáticos eram utilizados ali com a pretensão de salvar os Yetis da extinção, pois seu contato com os humanos já havia aniquilado grande parte da espécie. Vemos nessa parte, tanto por lado dos humanos quantos dos Yetis, discursos típicos de regimes totalitários baseados em premissas como “isso é um mal necessário”, “a mentira é pra nos proteger” ou ainda “nós acima de tudo e de todos”, bem parecido com o slogan nazista que outrora dizia “Alemanha acima de tudo”, complementado hoje com “Deus acima de todos” por certas figuras.
Neste sentido, uma reflexão possível que o filme causa é referente à ideia da representação do “outro”, muitas vezes tido e repelido socialmente como “estranho”, típico de abordagens narrativas que envolvem monstros e seres fantásticos, como o Frankenstein, Zumbis, Lobisomens, Vampiros, etc. Seguindo as ideias de Zigmunt Bauman, em sua obra O mal-estar da pós-modernidade (1998), a fobia e repulsa que um ser, por mais bondoso que seja, causa em outro, apenas por ser diferente, traduz o julgamento social latente expondo as chagas culturais típicas da humanidade. A diversidade utópica vislumbrada pelos protagonistas se depara com percalços e limites socioculturais baseados no medo e na ideia de ameaça, gerando cisões e tensões entre as diferentes criaturas e dentro das próprias comunidades tidas como iguais. Digo “tidas como iguais” pelo fato de que ninguém é igual a ninguém em nenhum lugar do mundo. Por mais que seja parecido, cada indivíduo, seja de qual espécie for, percebe e experimenta o mundo de uma forma única e completamente distinta de outro, e isso se traduz na harmonia da vida em nosso planeta.
Os monstros, de forma geral, convergem em si mesmos – enquanto construção arquetípica e em nosso imaginário – diferentes lendas e superstições, articulando um mosaico de pavores sem uma determinada uniformidade física ou moral, como se cada terror ou maldade lhe trouxesse novos ganhos em atributos ou saciasse sua alma obscura aos olhos humanos, que usualmente reagem contra eles de maneira violenta. Em comum, vê-se uma ferocidade antropofágica bárbara destoada do cânone, cuja função é ser mau em sua ação destruidora, matando, agredindo, perseguindo e aterrorizando, como uma representação do “outro”, do inimigo, do alheio, do ataque inesperado e depredatório, deformando e ampliando o “invasor” ao status monstruoso daquilo que devemos, de alguma forma, buscar combater dentro de nós mesmos.
Porém, o que as vezes pode escapar em relação à tudo isso é a percepção de que tais representações ilustram, como um espelho, nossa própria face frente ao que não concordamos ou é destoante de nossos valores institucionalizados. Sendo assim, o pior de todos os monstros somos nós mesmos e no filme nos reconhecemos assim e refletimos sobre o quanto a espécie humana é terrível, agressiva e feroz em relação ao que não compreende ou não aceita.
Umberto Eco em sua obra História da Feiúra (2015, p. 436) coloca que “a arte dos vários séculos tem voltado com insistência a representar o feio. Por mais marginal que seja, sua voz tenta recordar que há neste mundo algo de irredutível e maligno.” Como um filme não é obra apenas do seus criadores, se completando em ciclo de interpretação, compreensão, associação e ressignificação também nas mentes dos espectadores, no fim das contas, mesmo fechando com uma mensagem de confraternização e exaltação à diversidade e à tolerância, o que creio ser importante – ludicamente falando – para as novas gerações, a obra toca em pontos importantes que nos mostram que muito da suposta maldade presente no mundo é gerada por nós mesmo, que muitas vezes nos esquecemos que vivemos em uma coletividade social, ambiental e diversificada culturalmente.
A obra aponta reflexões em relação ao momento atual que vivemos, com essa pressão (destaque para a música Under Pressure, parceria do Queen com David Bowie, muito bem adaptada e presente no filme) e essa onda conservadora que nos assola e ascende o ódio em diversos níveis. Odiamos o trânsito caótico das grandes cidades, mas passamos por cima de ciclistas e odiamos a ideia de traçar o país com trilhos ferroviários, pois interesses econômicos estão em jogo e odiamos perder, mesmo quando o intuito é que todos ganhem. Odiamos que todos ganhem. Neste último caso, em especial, o ódio se mostra disfarçado de gana, principalmente se situado no nível político da discussão. A mesma gana do ocorrido em Mariana, que não olha além do próprio umbigo e da margem de lucro e se traduz sem escrúpulos em atentados contra a sociedade, a vida, e a democracia.
A gana traduzida em ódio. A gana de ganhar somente pelo fato de ser o dono da bola e não aceitar que outras pessoas pensem de forma diferente da sua e, pior ainda, de enxergar o diferente como inferior. O ódio sob a alCunha hipócrita do egoísmo de chamar de “mito” aqueles que mentem e distorcem a realidade, disseminando ódio à humanidade e à diversidade. O ódio que nos afasta da luz e nos aproxima do lado sombrio da força. O ódio rancoroso e egoísta de querer que as coisas sejam somente da forma que achamos correto, sem enxergar novas possibilidades. O ódio traduzido em apego a bens de consumo e materiais ou a ideologias fechadas e intransigentes a mudanças e a diálogos. Diálogos que não existem, pois não há debate, apenas ódio: opressor; verticalizado; de cima pra baixo.
Podemos, de certa forma, refletir sobre nós mesmos, como os Yetis ali representados: uma sociedade condenada e que será extinta por ela mesma se não se atentar que não se pode vencer o ódio com mais ódio e mentiras, isso apenas o aumenta, da mesma forma que a violência gera mais violência. No filme vemos, mesmo que de maneira utópica, que o amor, a união e a diversidade é a resistência a essa cultura armamentista calcada em valores de ódio e que vem sendo aclamada como ideal em nosso cotidiano. Eu sigo na resistência pelo amor (ou pelo menos tento), mesmo sujeito a erros durante o caminho. Busco fazer isso por meio de autocríticas que vão pelo viés da inclusão no discurso e maneira de pensar e agir. E você, qual o seu discurso? Excludente ou includente?

*Frederico Carvalho Felipe é mestre em Arte e Cultura Visual, especialista em Cinema, bacharel em Relações Internacionais e professor de fotografia, audiovisual, semiótica e linguagem visual. E-mail: fredcfelipe@hotmail.com



segunda-feira, setembro 03, 2018

Desastre no Museu Nacional - Os autores do crime permanecem soltos

Foto: Marcelo Sayão



Texto: Leticia Guelfi 

O primeiro final de semana do mês de setembro começou mais cinza, literalmente. Ontem a noite um incêndio de proporções faraônicas atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Poucas horas foram suficientes para apagar 200 anos de memória da nossa história.

Enquanto isso, embora os culpados pelo ato criminoso sejam conhecidos, nenhum inquérito ou mesmo prisão foram decretados. De acordo com o Código Penal Brasileiro, Homicídio Culposo ocorre quando uma pessoa mata outra, mas sem que tivesse esta intenção, nem tendo assumido conscientemente riscos da ação. Ainda de acordo com o artigo 121, podemos caracterizar o homicídio culposo como negligência: agir sem cautela ao realizar uma ação. Por exemplo, não verificar os pneus e freios antes de viajar e causar, posteriormente, um acidente.

Embora não apareçam nas manchetes, os responsáveis por esta catástrofe são os nossos políticos que, em meio a gestões desastrosas, operam cortes a torto e a direito, sem refletir sobre as consequências dos seus atos; os mesmos que negligenciam o repasse de verbas a instituições que são pedra angular da cultura nacional. O descaso mata.

E não estamos falando somente do Museu. A situação se agrava quando pensamos que esta instituição estava vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, outro local sabidamente castigado pelos sucessivos cortes orçamentários, que objetivam, em última instância, tornar inviável a manutenção das Universidades Federais no Brasil. Em um mesmo panorama visualizamos, de um lado, goteiras, ratos, infiltrações; do outro, professores sem salários, laboratórios sucateados e interrupção de pesquisas. Um cenário no mínimo desolador.

E no ano do Bicentenário....nada temos a comemorar, pois tudo virou fumaça.

quarta-feira, agosto 01, 2018

Como se fosse loucura



Talvez,
em alguma realidade paralela
ou outra dimensão
não exatamente como a nossa,
alguém
imagine o nosso mundo
e conte para outros seres
como se fosse loucura.
Talvez.

Talvez,
Assim como os átomos, células e órgãos de nosso corpo
Sejamos também
microcosmos de um organismo maior.
Células adormecidas, ativas
adoecidas ou sadias
que derrubam, erguem, proliferam e transportam.
A vida louca no trânsito, nos shoppings ou nos aeroportos.
A vida louca nas veias, no cérebro, nos mitocôndrias.
como se fosse loucura.
Talvez.

Talvez,
O universo seja um ser em outra dimensão.
O universo seja alguém com uma diferente percepção.
A realidade para o universo seja diferente da nossa enquanto ser.
Assim como somos antes de nascer.
Assim como somos quando nossa mãe é o ar.
Assim como o espermatozoide percebe o ovulo a fecundar.
Assim como o vírus nas veias a matar.
Assim como o câncer no corpo a se alastrar.
Assim como eu e vocês, o planeta machucar.
Assim, 
como se fosse loucura.
Talvez.

terça-feira, julho 10, 2018

Twin Peaks e a viagem pelos tempos e espaços do nosso próprio imaginário.


Assim como existem profetas que ditam que a música em formato físico e compilada em álbuns está morta, há quem diga que o cinema está com os dias contados e que as novas plataformas midiáticas irão tomar conta dos meios de produção audiovisuais. Porém, na contramão destes seres apocalípticos midiáticos, o fato é que os meios artísticos, expressivos, narrativos e comunicacionais não necessariamente se extinguem ou se anulam devido a novas descobertas e avanços tecnológicos, ao contrário, transformam-se, se adequando ao contexto social que se encontram.
Desta forma, as linguagens se misturam, se hibridizam, o que possibilita novas possibilidades de leitura e interação entre a emissão da mensagem e sua recepção. A pintura não viu seu fim com o surgimento da fotografia, assim como o teatro não acabou com o advento do cinema, e, atualmente, temos diversas linguagens permeando e comunicando entre si por diversos meios. O computador é um desses meios, uma “metamídia” que aglutina e mistura digitalmente diferentes linguagens, tendo hoje como aliada a rede internet, que nos possibilita algumas facilidades em relação ao acesso e contato com obras audiovisuais de diversas partes do mundo e de diferentes épocas em segundos.
As representações artísticas e midiáticas executadas por meio de máquinas e softwares buscam, geralmente, operar com a ilusão sobre os nossos sentidos. Seja um filme, um game, ou uma série, tais fenômenos agem, de forma geral, no sentido de provocar nossa imaginação, gerando uma sensibilidade aparente que nada mais é que uma peça pregada em nós mesmos. Nessa relação, atuamos como uma espécie de re-decodificador de informações digitais abstratas provocadas por meio da tecnologia e aguçadas em nossa mente por meio da imaginação.
Inúmeros filmes, videoclipes, pinturas, personagens, histórias em quadrinhos, entre outros meios de expressão e linguagem artística, por constituírem-se como uma forma de representação e refletirem assim o contexto em que estão localizados, trazem consigo diferentes visões de mundo, preocupações sociais e orientações ideológicas. Tais obras perduram como “recortes” e testemunhas históricas do seu tempo e podem ser analisadas com a finalidade de descortinar informações muitas vezes ocultas em documentos oficiais.
Neste sentido, as tecnologias nos servem, enquanto espectadores de histórias, para ampliar nossa imaginação, buscando novas possibilidades de comunicação entre diferentes contextos e linguagens. A Netflix, conhecida plataforma on-line de filmes e séries, em parceria com o canal de TV norte-americano Showtime, nos apresentou, desde 2017, a possibilidade de contato com essa relação entre contextos diferentes com a continuação de uma obra-prima que supostamente havia se encerrado há cerca de 25 anos: Twin Peaks, do diretor David Lynch, que entre outros trabalhos, assinou Veludo Azul, A Cidade dos Sonhos, Eraserhead e A Estrada Perdida.
Twin Peaks foi uma série de sucesso no início da década de 1990, e que agora volta, em 2017, com os mesmos atores de mais de duas décadas atrás, dando prosseguimento – fato previsto na segunda temporada, quando a personagem Laura Palmer diz ao agente Dale Cooper: “Te vejo em 25 anos” – a história da investigação de um assassinato em uma pequena cidade norte-americana e suas peculiaridades com personagens estranhos e excêntricos, além de uma trama que alterna momentos de suspense, drama, policial, comédia, terror e surrealismo, destoando de produções narrativas teleológicas padrões, com início, meio e fim.
A obra aborda, por meio da representação, nossa sociedade idiotizada, alicerceada pelos pilares da grana, do status e do poder e, por outro lado, propõe níveis filosóficos de abstração do pensamento e da matéria, elevando a reflexão a aspectos metafísicos e metalinguísticos com o próprio universo precedente da narrativa e com o audiovisual e a cultura pop, de forma geral, atingindo questões sobre o que somos e qual a nossa importância no planeta por meio de nossas ações.
Além da série, o universo ficcional de Twin Peaks também se imbrica no longa-metragem intitulado Twin Peaks: os últimos dias de Laura Palmer, de 1992, o que provoca uma expansão da obra e pode se enquadrar em uma relação transmidiática no que tange à narrativa original das duas primeiras temporadas da série televisiva e, agora, da terceira temporada, também chamada de Twin Peaks: The Return.
Nesta última temporada, ao vislumbrar o futuro pelo passado (em 1991, quando a segunda temporada da série acaba) e retomando esse passado em uma nova configuração no futuro em relação àquele contexto anterior (ou seja, o agora), o diretor reflete sobre a sociedade atual e os caminhos que trilhamos desde então com nossos valores culturais ocidentais expostos em uma viagem estética e narrativa surrealista por diferentes dimensões que nos deixa atônitos e extasiados.
Um fato interessante é a maneira como o diretor lida com os cenários, alguns revisitados das outras produções de Twin Peaks e outros novos e exclusivos desta nova produção, trazendo assim uma ideia de contraste entre o conforto do espectador habitual em saber onde está localizado e a angústia/surpresa decorrente da exploração de novos ambientes. Destaque aqui ao pub The Roadhouse, o qual abriga apresentações de diversos músicos como a banda Nine Inch Nails, Eddie Vedder, entre outros, e estabelece fechamentos geniais para cada episódio da temporada.
A arte audiovisual proposta aqui se mostra arrebatadora na expansão de nossa imaginação e traduz bem o estilo de Lynch, que o consagrou e o marcou. As inúmeras transformações pelas quais passamos cotidianamente vêm à tona assistindo ao seriado. O vazio existencial que eventualmente pode consumir nossas verdades e as formas que lidamos com essas verdades absolutas estão ali representadas e questionadas em Twin Peaks, com uma poética intrigante típica do diretor. “Estamos no futuro ou estamos no passado?”, ou “Somos como o sonhador que sonha e depois vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?”, são algumas questões existenciais levantadas na trama. Além da parte visual que é esplêndida, com suas cores e texturas, o uso das pausas e do som como meio narrativo também provoca uma grotesca sensação de tensão e estranhamento ao longo dos 18 episódios desse retorno.
É possível assistir a nova temporada de Twin Peaks sem ter assistido às outras produções referentes a este universo (não disponíveis na Netflix), porém, assim perde-se boa parte do contexto e das conexões com lacunas anteriormente abertas na obra, como detalhes estéticos e narrativos na mise-en-scène que possibilitam agora ao espectador atingir outros níveis de percepção.
Sugiro que, ao assistir a série, procure se desvincular de amarras estéticas e narrativas pré-concebidas. Deixe-se fluir nas lacunas oferecidas aos seus sentidos, auditivos e visuais. Adentre as articulações artísticas e referências propostas na obra. Abra-se para a reflexão por diferentes pontos de vista sobre a vida que leva e que é exposta. Twin Peaks traz a arte no sentido puro de materializar experiências intangíveis de forma a excitar nossas memórias sensoriais, rompendo com padrões e transcendendo, muitas vezes, nossa percepção do tempo, do espaço e sobre nós mesmos, de uma maneira única e completamente sensorial e até abstrata. Twin Peaks é, antes de tudo, uma obra onde o “sentir” vem antes que o “compreender”. Ademais, mergulhe fundo na obra desse genial cineasta e sonhe acordado e sem limites com suas fantásticas produções. Até a próxima aventura!

sexta-feira, maio 25, 2018

Expressionismo Breu

"Cão Breu pós-humano" sobre desenho original feito pelo artista Edgar "Ciberpajé" Franco como dedicatória pra mim durante o lançamento de seu livro "Oráculos" na Mostra Trash no fim de 2017 em Goiânia-GO-Brasil.

Know your shadow! Take a look to yourself!
Look inside your mind. Look inside your soul.
Take control about the illusion of your world!

O mundo é você!
(De dentro pra fora)
O mundo clichê!
(De fora pra dentro)
Transfiguração.
Metamorfose.
Vísceras lunar. O uivo do despertar.

Blow up your mind! Wake up!

Cani Buiu. Black Dog. Cão Breu.
Transmutar.
Reconfigurar o DNA.

O inferno é agora! O tempo não existe!
Oh Lord, Get Back! Get back, get away!

Fogo fluido.
Liquidez radioativa.
Notas diminutas.
Aracnídeas.

Blow up your mind! Wake up!

Quem olha pra fora, sonha. Quem olha pra dentro, desperta.
Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos.

CIDADE DE SANGUE



Ontem, após sair do lançamento da graphic novel “Cidade de Sangue” que o amigo Márcio Jr. produziu em parceria com Julio Shimamoto, cheguei em casa, abri um vinho e fui ler a obra. Já de cara me impressionei com os traços de Shimamoto (feitos inacreditavelmente com ferro quente e maçarico) que me remetem à estética dos expressionistas e suas distorções das formas. Tive uma sensação parecida a de quando assisti pela primeira vez ao clássico “O gabinete do Dr. Caligari”: imerso em um caos de linhas turvas, formas desfiguradas e contrastes acentuadamente grotescos. Uma representação desordenada da realidade trazendo aquela boa e velha sensação de que tudo está para ruir a qualquer momento, e é exatamente isso que acontece. Tudo rui na Goiânia narrada por Márcio Jr. e Shimamoto, seja em 1995, seja em 2018. Tudo parece estar por um fio. Nada se estabelece em um solo firme e harmônico. Mesmo em contextos de alegria, a perturbação está (oni)presente. A planície da capital goiana que nos acostumamos a ver diariamente, caracterizada pela linha do horizonte e pelas formas rígidas da arquitetura Art Déco, é decomposta em pról de uma fluência em traços diagonais repletos de angústia e, principalmente, SANGUE. Um horror explícito nas expressões dos personagens, cenários e que é acentuado pela colorização em um vermelho estarrecedor feita com propriedade por Tiago Holsi.
Aos moldes bukowskianos, a cadência narrativa da graphic novel nos aproxima e ao mesmo tempo nos repele dos personagens, causando uma espécie de divisão moral em nós mesmo, estapeando-nos com nossos valores sem cair no papo melodramático de bem x mal, mas, pelo contrário, construindo uma representação calcada na crueza da humanidade, destoada de uma polarização maniqueísta e que acentua traços típicos humanos sobre questões existenciais que ocasionalmente nos acomete. Não há final feliz ou triste. Não há bem ou mal. As coisas simplesmente são, acontecem e se dão por meio de ações e reações na diegése da obra. A dúvida da fertilidade traduzida como uma base de sustentação da família. O amor em tempos de ódio. O sexo, a violência, o escárnio diabólico de uma vida enferma que transforma o mundo representado em um grande manicômio, conduzindo-nos por meio do personagem ao abismo infernal de ser julgado culpado injustamente por um crime que não foi cometido. Encarcerado, vilipendiado, diminuído à guimba do charuto ostentado pelo chefe, o personagem cai de forma livre ao inferno, pois a morte não seria um desfecho suficientemente doloroso. A maldade escancarada de um narrador que não poupa suas criaturas. Uma cidade onde não há saída. Uma cidade de sangue e lágrimas que representa o inferno da dor e do prazer de cada dia amanhecer respirando o ar seco e empoeirado do cerrado. Uma cidade treta!